Praça da Matriz
Eu queria te beijar no meio da praça
Em meio aos pombos agitados
Atravessando os carrinhos de pipoca, os passantes
os casais.
Mas espero em silêncio
As mariposas voarem
E o tempo vagaroso,
chegar aqui.
Receita
È preciso pintar as paredes,
com polém, violeta, anil, carmim
Trocar os lenções,
cobrir de verde o colchão
Esvaziar os armários,
jogar fora os papéis, calendários, as lembranças
È preciso concentrar-se nos dias,
fazer o chá de alecrim, erva-cidreira ou hortelã
Retirar o açucar
Amar sem culpa
Partir
Te vejo partir
Num dia estrelado e quente
Há tempos não chovia no sertão
mas quando você partiu
o céu derramou centenas de lágrimas cristalinas
E teus cabelos de algodão
espalham-se pelo chão
flores de cacto abriram-se
sem cerimonia.
Tu dormias profundamente
Numa viagem intensa.
Olhar
Fagulha
Desenho-te nas páginas [uma lembrança lisa]
Tu escorregas entre as linhas [risco em falso, traço em branco]
Desapareces entre meus versos [púrpuros, sólidos]
Reapareces me lembrando [em um abraço longo, beijo infindo].
Florzinha Feliz
Deu-me a flor
Como quem presenteia o melhor amigo
Como quem beija os lábios, em arrepio
Como quem vagueia paisagens azuis
Deu-me a flor
Como quem dispara um grito
Como quem abre um sorriso
Como quem vem a dar
a mais linda flor
que me sorri.
Mais uma noite
Minha Flor
Preciso lhe dizer que a primavera
Nos fez ganhar mais um dia, um sonho
o certo, o incerto, tudo que virá.
Preciso lhe dizer que alegro-me cada dia
pensando em te encontrar
caminho curto,
em passos longos
Preciso lhe dizer que o passado já não me importa
noites frias, em ruas vazias
Tudo esta cheio, florido
foi só você chegar.
Tu invade
Tu invade
meu rito
meu grito
meu vazio
estomago
boca
da cabeça,
cada fio
Tu invade
meu eu
tudo que é meu
tudo que já é tão seu.
Minha Primavera
Minha primavera
Tem mais flores que a sua
As flores se abrem com solenidade
E borboletas cruzam as ruas
Tudo desarma
e sorri
Um riso, em risco
a pautar seu rosto.

